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O ex-senador e ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes

Aloysio Nunes: ’Estamos ansiosos para ouvir o que diz o eleitorado norte-americano nessas eleições’

Por: Aloysio Nunes
02/11/2020 às 19:08
Opinião

Artigo do ex-senador e ex-ministro das Relações Exteriores explica os motivos que levam o brasileiro a acompanhar com grande expectativa as eleições nos EUA, que ocorrem nesta terça-feira (3)


O interesse pelas eleições norte-americanas – maior do que seria nosso interesse por eleições em países vizinhos da América Latina – vem do grande parentesco que temos com os Estados Unidos.

Com os EUA nossas relações têm uma inquestionável dimensão econômica, mas vão muito além disso. Compartilhamos com os EUA modelos de organização estatal, com a Federação, o Congresso bicameral, e o Judiciário com três níveis de jurisdição. 

Estamos imersos no mesmo caldeirão cultural. Cinema, TV, música, assim como expressões verbais pura e simplesmente transpostas para a nossa língua atestam essa proximidade. As religiões evangélicas, cada vez mais difundidas entre nós, foram quase todas introduzidas no Brasil por missionários norte-americanos. 

No Brasil, liquidação é sale. Entrega virou delivery. A meninada festeja o Halloween. As grandes plataformas da Internet são norte-americanas e assistimos séries de TV em empresas de streaming de lá. Felizmente, não estamos tão próximos dos EUA como o México, mas no plano cultural, talvez, o nosso parentesco seja maior.

Assim, é natural que as eleições norte-americanas chamem tanto a nossa atenção. Falemos agora de política: se Trump ganhar, nada muda substancialmente. Não creio em acordos de livre comércio, pois nossas economias, naquilo que é o forte brasileiro no comércio mundial, são mais concorrentes do que complementares. Poderá avançar um acordo de proteção de investimentos recíprocos e outro de facilitação de comércio. No mais, Trump continuará jogando pesado como tem jogado até agora com o "amigo” Bolsonaro, no campo comercial. 

Já os democratas, serão tão protecionistas como foram no passado. No entanto, Biden terá maior engajamento nas organizações multilaterais que balizam a ordem econômica mundial, como a Organização Mundial de Comércio, em substituição ao unilateralismo acintoso de Trump. Isso será muito positivo para o Brasil, que sempre defendeu o comércio internacional sujeito a regras como terreno mais propício para a defesa dos nossos interesses. 

Nos organismos internacionais do sistema das Nações Unidas, os representantes norte-americanos se afastarão da atual postura ultraconservadora sobre direitos humanos, direitos reprodutivos das mulheres, questões de gênero e cooperação em saúde pública, ficando a atual diplomacia brasileira mais isolada nesse âmbito. 

A defesa do meio ambiente e a luta contra o aquecimento global são itens essenciais na plataforma de Biden, tanto na política interna como na externa. Os EUA voltarão ao acordo de Paris e exercerão forte pressão sobre o governo brasileiro nas matérias ambientais, podendo chegar a ponto de travar programas de cooperação, investimento e comércio, caso não haja sensível mudança de rumo na posição brasileira. 

O inconformismo norte-americano com a ascensão da China é suprapartidário. Penso, no entanto, que Biden seguirá os passos de Obama ao separar temas de confrontação dos assuntos onde haja espaço para cooperação: em outras palavras, a truculência abrirá espaço para a diplomacia, e isso aumenta a margem de manobra do Brasil no jogo entre essas duas potências. 

Por essas razões, entre outras, é que estamos ansiosos para ouvir o que diz o eleitorado norte-americano nessas eleições.

Aloysio Nunes (PSDB) é ex-senador da República, ex-ministro das Relações Exteriores, ex-ministro da Justiça e ex-vice-governador de São Paulo 







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