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Foto por: Divulgação
Filme ’O Poço’ (2020)

’O Poço’, da Netflix, surpreende e se torna essencial em tempos de coronavírus; leia crítica

Por: Miguel Flauzino
28/03/2020 às 10:29
Cultura e Diversão

"Nenhuma mudança é espontânea”


O Poço é uma prisão onde se encontra todo tipo de gente. Ela é organizada de forma vertical e através de níveis. Sempre com dois prisioneiros em cada andar. Todos os dias uma mesa farta de comida desce em todos os níveis. Fazendo então os de cima terem mais acesso a comida, e os debaixo ficarem sem.


É uma crítica social com um roteiro ambicioso. O diretor Galder Gaztelu-Urrutia traz uma visão extremamente pesada para as desigualdades sociais, mas visão esta que funciona pela brutalidade e veracidade de seu filme. Enquanto os de cima recebem a mesa farta, os da "classe baixa” ganham uma mesa com apenas pratos e copos vazios.

O mais interessante a se perceber é que Urrutia sempre utiliza um primeiríssimo plano em certas ocasiões para trazer a dúvida ao espectador – os olhos de Goreng ou até mesmo a mesa de comida. Técnica que funciona, já que seu roteiro traz fôlego para toda a trama, e como traz fôlego.

Só a questão de todo mês haver mudanças de níveis no poço já é motivo para que haja pelo menos uma história decente. Para cada nível existe uma complexidade.

O longa trabalha bem a questão da mudança de andares. Tão bem que, após certa revelação – sem spoiler –, a atenção do espectador se volta em tentar descobrir como o protagonista será solidário nos altos níveis, e não nos baixos.

Ainda falando do roteiro, é inteligente colocar um personagem que não sabe nada sobre o poço, entendendo que o público também não sabe. Assim, cada pergunta de Goreng se torna a pergunta de qualquer um. Automaticamente, revelações, camadas e experiências vão se adquirindo juntamente ao protagonista. É intrigante até perceber que, no final, do mesmo modo em que Goreng se torna mais frio, o espectador também.

Entretanto, em meio à crítica de Urrutia existem certas idéias tendenciosas. Toda pessoa colocada no poço não escolheu seus andares. As de cima comem tudo o que vêem pela frente porque acabaram de sair debaixo. Julgar os de cima por não deixarem comida para os debaixo é uma atitude que beira a hipocrisia, já que no próximo mês os dos níveis baixos podem estar no topo, e repetirão as atitudes de seus antecessores.

O diretor propõe uma verdade absoluta na sua narrativa e ignora o realismo de toda situação.

O filme coloca um protagonista que até parece uma cópia de Jesus. Não é à toa, o mesmo é chamado de ‘Messias’ várias vezes, e nos minutos finais se iguala a um cosplay do Cristo. Todo machucado e entendendo seu propósito: "Sou apenas o mensageiro”. Urrutia ainda chama Goreng (o "salvador” do longa), ironicamente, de comunista. Mas não, Urrutia, Jesus não era comunista.

Em resumo, ‘O Poço’ é uma obra que surpreende. Tanto por sua crítica extremamente relevante quanto por sua narrativa totalmente eficiente. Em tempos de coronavírus e brigas políticas, é de se pensar que ‘a mensagem’ não é cutucar o governo, mas sim ajudar um ao outro – lembre-se da cena final.

O filme está disponível na Netflix.

Nota: 4/5 (Ótimo)









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