Jill Castilho

Arquiteto e escritor


Meus filhos estão virando arco-íris!

Por: Jill Castilho
22/09/2019 às 10:24
Jill Castilho

Gente, é sério! Preciso da ajuda de alguém! Já fui em todos os lugares e ninguém me ajudou! Sou gay, casado com outro homem, adotamos três crianças por adoção tardia.

O período de adaptação foi tranquilo, crianças lindas, todos nós nos amamos, sabe aquela família perfeita de comercial de margarinas... ops... esse tipo de comercial não tem família homoafetiva. Enfim, família adorável, todos amam nos ver juntos, aparecemos em programas de tv, em matérias de jornais como exemplo de família unida pelo amor, que quebra paradigmas impostos pela sociedade.

De um tempo pra cá estamos tendo um problema, na verdade as crianças estão com problemas, muito sério, por favor, não riem, é sério! Não sei como escrever isso, e também nem sei como vão reagir... lá vai: NOSSOS FILHOS ESTÃO SE TRANSFORMANDO EM ARCO-ÍRIS, simmmm estão ficando com aparência de arco-íris!!!! Aí meu Deuuusss....

Bom, vou tentar explicar certinho pra entenderem melhor o ocorrido. No começo eles tinham dois braços, duas pernas, tronco, cabeça, porém com o tempo percebemos que as partes do corpo deles começaram a se tornar arco-íris. Primeiro foram os pés, simplesmente desapareceram, no lugar dos pés agora existe uma luz colorida, por sinal muito bonita. Até que um dia o prefeito da cidade nos fez entender que eram nossos beijos na boca, meu e do meu marido. Quando nos beijávamos na frente dos nossos filhos partes do corpo deles desapareciam... Não foi só de um, foram dos três, os dois pés dos três filhos...Entenderam?!

Se soubéssemos antes, poderíamos prevenir, pelo menos hoje estariam andando e não flutuando... Paramos de nos beijar na boca na frente das crianças, dormimos algumas noites tranquilas, até que começaram a sumir os dedos das mãos. Pensávamos que eram somente nossos beijos, mas nãããããoooooo...  Nossa vida estava se transformando em um inferno, os colegas apontavam e xingavam nossos filhos, até a professora pediu pra não os levar mais na escola, porque poderia ser contagioso, ninguém sabia como lidar. 

Então, eu e meu marido percebemos que ainda trocávamos carinho um com o outro na frente deles, dávamos as mãos, fazíamos cafunés... Então minha vizinha, muito solicita, sugeriu para que não nos tocasse mais, pra tomarmos uma atitude radical, nenhum toque físico, nada, nem esbarrão sem querer. Paramos até de dormir juntos, para assim não ter a possibilidade do contato. Bom, achávamos que depois disso essa metamorfose cessaria. Mas nãããooo gentiiiiii.... NÃO parou, sumiram as pernas e os braços, no lugar apenas luz de arco-íris. O mais impressionante é a luz, poderosa, radiante, hipnotizante. 

Depois de perderem os braços e as pernas, levamos nossos filhos pra casa dos meus pais, casal heterossexual, por sinal muito conservador. Ufa, agora viveriam num modo de vida heteronormativo dentro das regras machistas, onde o homem manda a mulher obedece....  Estávamos esperançosos, pois todos vizinhos, parentes e colegas nos faziam acreditar que os agentes transmissores, eram nosso "modo de vida”. 

Passou-se um dia e uma noite na casa dos avós. E o que aconteceu?! O tronco do corpo desapareceu, porém, a luz se tornou mais fraca e opaca, as cores do arco-íris se tornaram indefinidas, sem vida. Então os trouxemos logo de volta pra casa e logo a luz se acendeu novamente, mas a transformação continuara lentamente. E agora?! Será que é incurável? Será que é contagioso?! Bom se fosse contagioso todas as crianças já teriam pego arco-irisite, nome que o médico do postinho sugeriu rindo alto. Claro, antes de escrever pra vocês, já fui em mais de dez médicos, os que quiseram atender.

Assim... não é ruim serem arco-íris... Na verdade, nos acostumamos com a luz deles, pois nos aquece quando estamos com frio, ilumina nossos pensamentos quando estamos preocupados, cura feridas mais profundas que jamais ninguém tratou. A minha perturbação vem através dos outros. Muitas pessoas que não convivem conosco não conseguem enxergar nosso amor, respeito e união, porque simplesmente acreditam sermos aberrações. Tenho medo de como são tratados na escola, com amigos, namoradas ou namorados, medo de sofrerem alguma violência física por simplesmente serem diferentes dos padrões. 

A humanidade perdeu o olhar humano, superdimensionando as diferenças, para assim prolongar o afastamento que as redes sociais nos proporcionam, continuando no vicio do julgamento. Quando nos apegamos as semelhanças não há espaço para crítica ou violência somente compreensão, respeito e amor. 

Enquanto escrevo, meus filhos já não têm mais queixo, boca, olhos, perderam as orelhas... Chego à conclusão que com eles está tudo bem, somos felizes assim... Quer saber?! Deixarei a metamorfose se completar, se transformarem em arco-íris inteiramente, continuarei amando-os mesmo não podendo abraça-los e nem alimentá-los, pelo menos posso senti-los, vivenciar nosso amor. Continuarão sendo meus filhos, mas agora de outra forma, como Luz.






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