Jill Castilho

Arquiteto e escritor


A homofobia do nosso dia a dia

Por: Jill Castilho
07/11/2019 às 14:38
Jill Castilho

A toda semana em minha timeline, aparecem pelo menos de duas a três notícias sobre violência gerada pela homofobia. Até quando teremos que conviver com o medo e a perseguição?! A luta pelo fim da homofobia é de toda a sociedade, começando com a mudança de diversos costumes machistas que permeiam nossa cultura.

Esta semana, foi noticiado na grande mídia que um homem levou quatro tiros, por apenas beijar outro homem em público, num bar, na região metropolitana de Salvador. Há alguns dias, depois de uma refeição em família, minha filha conta que o amiguinho do meu filho do meio, xingou ela de Viado. 

A Homofobia advém da nossa cultura machista, permeia nossa criação e nossas atitudes. Claro que a violência de levar quatro tiros é imensamente maior, do que um simples xingar de crianças, sem dúvidas. Porém a discriminação nasce no nosso dia a dia, através de piadas de mau gosto, de gestos ou atitudes enraizados no nosso subconsciente coletivo. Por isso o combate a cada gesto ofensivo deve ser combatido por toda a comunidade. 

Com este episódio em minha casa, conversei pela primeira vez, explicitamente, com as crianças sobre os preconceitos em relação as pessoas homossexuais. Sempre houve uma outra forma de se falar neste assunto, com alegorias ou metáforas. Mas dessa vez, como já estão maiores, resolvi esclarecer tudo. Primeiro perguntei o que eles entendiam sobre a palavra Viado. A Bia me disse que era um animal, meus dois filhos maiores, disseram não saber, para não entrarem no assunto. Respondi a minha filha, que sim, Veado é um animal, mas que neste caso se referia a outro sentido.

Então, mencionei sobre minha infância, que quando criança me sentia e me comportava de modo diferente do grupo de meninos dos quais convivia. Meu jeito de falar e andar, eram taxados como afeminados pela sociedade. Por esse motivo, me xingavam de "bichinha, viado, maricas,” o que me deixava muito triste, não podendo falar pra ninguém, indo chorar sozinho e silenciosamente no banheiro. 

A todo tempo da conversa, meus filhos não tiraram os olhos de mim, nem por um segundo, ficaram vidrados, compenetrados. Não sei se haviam a consciência plena do meu relato, porém sentiam a dor em minhas palavras. Em outro momento da conversa, afirmei que este preconceito era parecido com o de ser negro, pois já havíamos conversado sobre racismo em casa. Disse que algumas pessoas não aceitavam e não achavam certo o amor entre pessoas do mesmo sexo.

No decorrer da conversa expliquei que nós da comunidade LGBTI ressignificamos estes xingamentos, hoje nos apropriamos deles. Então, disse que se um dia, um outro amiguinho os chamasse de Viado ou algo parecido, poderiam falar que seus pais são Viados com muito orgulho, pois são Viados arquiteto e advogado, são pais, filhos e cidadãos com consciência do papel social.

Enfim, terminamos a conversa e logo foram assistir TV. Agora podem não entender direito a dimensão desta conversa, no entanto compreenderam o que causa este tipo de preconceito. O respeito a diversidade é imprescindível em nossas vidas. O combate a homofobia vai além da sua criminalização, deve residir no cotidiano de todos, na conscientização social através da educação, na desconstrução permanente dessa cultura de opressão regida pelo machismo.






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