Wilson Guilherme

Jornalista e escritor


O umbigo do mundo

Por: Wilson Guilherme
29/08/2019 às 13:53
Wilson Guilherme

Pra mim, o bairrismo, ao contrário do nacionalismo, é uma "doença” benigna. Costumo dizer para os amigos de fora que Rio Preto é o umbigo do mundo. É cada vez mais comum vermos filhos da terra espalhados por este planeta, gerando notícias de grande repercussão, para o bem e para o mal, claro, faz parte do jogo. Eu mesmo, sempre que posso, canto e defendo a minha aldeia, em qualquer lugar que esteja. 

T1, E-1

Naquele março, em que deixei a Vila Esplanada pra estudar em SP, levei na mala mais cartas de recomendação/apresentação do que roupa. Foi o tempo em que procurei ou, quem sabe, delirando em meio à multidão, vi rio-pretenses imaginários que poderiam me abrir caminho para sobreviver na selva de pedra. Os conterrâneos indicados estavam imersos no anonimato da cidade grande, pouco a fim de rever gente da província, muito menos cartas de apresentação, como a indicar sabiamente que há momentos que temos que enfrentar sozinhos o desconhecido. E o desconhecido todos sabem é uma fera assustadora.

Tempo depois, vivi outro tipo de situação. Viajando por algumas regiões do país, conheci rio-pretenses nos lugares mais que inesperados. Gente comum, que deixou a cidade para tentar a sorte em outras paragens, com histórias que não aparecem nos jornais, mas nem por isso menos importantes. 

T2, E-2

Fim de tarde, passeando por Salvador, entro na Igreja do Bonfim, mal me acomodo, senta um casal ao meu lado e o cara começa a fazer perguntas: - Cumprindo promessa? - Não, vim conhecer a Igreja, respondo. 

Além dos habitantes do Paraíso, ele queria que eu soubesse: "Recebi o milagre de curar o meu joelho e sempre que venho à Capital, passo pra agradecer.” Você é de onde, pergunto. 
"Moro em Feira de Santana, mas sou paulista.” Digo, eu também, e o cara, "sou paulista do interior” (eu também, putz, penso, só faltava ele dizer que é rio-pretense). 

E não é que o cara disse com a boca cheia: - "Sou de São José do Rio Preto”. Pronto, começamos a tricotar e nem demos conta que a missa tinha se iniciado. Descobri que o novo amigo era irmão de um velho amigo, que a mãe dele tinha trabalhado com a Teresa, que ele estava muito bem em Feira, mas sentia falta da terra natal. 

Ensaiei pra dizer, "cidade boa é a que dá emprego pra gente”, desnecessário, pois a minha presença era para amenizar um pouco a saudade que o amigo sentia da cidade que estava a quase dois mil quilômetros de distância. Saudade da família, dos amigos, do "erre” retroflexo, dos rachas e churrascos, dos barzinhos… 

Quem sabe até do vento empoeirado de agosto, uma mistura de sensações que o imigrante carrega consigo para sempre. Momentos em que a influência do meio se torna imperativa.
Trocamos cartões, fiquei de visitá-lo no retorno da viagem (não pude); ele ficou de me procurar por aqui… ainda estou esperando. Depois desta, passei a acreditar que posso encontrar rio-pretenses até em outros planetas. 

Tem também o conterrâneo que conheci em uma ilha do Pará, mas este é outro episódio, de outra temporada. Aguardem, T-3, E-3.






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