Allexandre Silva

Jornalista especializado em comunicação empresarial, historiador e professor universitário. Escritor e pai.


A feira

Por: Allexandre Silva
09/07/2020 às 09:25
Allexandre Silva

Quando tudo isso acabar, o isolamento não for mais a regra e quando todos puderem frequentar os lugares de antes com a mesma energia do passado, o primeiro lugar que quero visitar é uma feira – feira livre, dessas de rua. 

E não, não qualquer feira... quero a feira do Solo Sagrado! Sim, a feira de verdade, feira raiz, feira viva. 

Geograficamente descrita, o compromisso dominical das mais de 250 mil vidas  daquela região se dá na rua Joaquim Lopes da Silva, por três ou quatro quarteirões oficiais. Afetivamente falando, é na verdade a "Feira da 19” e se estende por quadras e quadras a perder de vista, com uma rua principal, as laterais, às de trás, as da frente. Um emaranhado de cores e gente onde tudo se vende, tudo se vive.

Sete ou oito quarteirões antes da rua principal – ou das três quadras – já se sente a energia. Seja pelo cheiro de pastel ou pelas rodas de bate papo nas esquinas, as crianças vestidas com a roupa de domingo e senhoras já voltando pra casa com aquelas sacolas de plástico colorido e carrinhos feitos de lona e pneuzinhos de borracha. Não raro, salões de beleza instalados por perto também estão funcionando e é comum ver um ou outro senhor aparando a barba nos antigos "barbeiros”, os não gourmetizados, com navalha, espuma e ouvindo "Meu ipê florido” em caixinhas de bluetooth.

Mais perto, a energia do aglomerado antes permitido já se sentia – os comerciantes também. Tem uma borracharia, as lojinhas de brechó e uma de mil e uma utilidades que cumpre o que vende em sua placa – entre ali e encontre de tudo – mesa de escritório, lamparina, ração para cachorro, toalhas de banho da Patrulha Canina! Na rua, os vendedores já apresentam o que tem seja em carros abertos, no porta malas ou toalhas estendidas pelo chão. A vendedora evangélica de produtos de limpeza que te recebe e se despede com um "Deus te abençoe” é obrigatória! Os angolanos com relógios tão brilhantes como suas peles e sorrisos e os vendedores de peixe e frango vivo, levados ali em gaiolas gigantes ao lado de pintinhos, às vezes coloridos. 

Legumes, verduras, mais lojinhas de roupas, brechós, camisetas de futebol e uma senhora com um sem número de pares de sapatos dispostos no chão mesmo, na calçada, usados mas impecavelmente limpos! Sempre tem milho verde e tão apetitoso e chamativo como ele, as barracas de pastel são uma atração à parte. Dos mais simples aos mais elaborados, já comi ali pastel com massa integral recheado com jiló e queijo de canastra e – melhor ainda -  pastel de carne pingando óleo com vinagrete e muito patê de alho  - uma iguaria!

Para as crianças, as barracas de brinquedos oferecem uma infinidade de sons e cores vindos da China e vendidos ali a preços realmente atrativos. "Comerciante de rua não sabe vender!”, dizem uns. Para mim, os bons comerciantes estão ali. Um dos trenzinhos que comprei para as crianças quebrou horas depois de chegarmos em casa. Com o whats do vendedor, recebi toda a assistência técnica necessária para não traumatizar os pequenos e ainda fazer um novo amigo que, também pelo whats, manda semanalmente as novidades que recebe. Fidelização inclusive na pandemia – entrega em casa em sacolas individuais e  higienizadas!

Gente, muita gente, muitos cheiros. A barraca de tempero, roupas e utensílios domésticos. Na minha mão é mais barato! 4 por 10! Barulho. Gente doando cachorro e gato, muita gente fazendo isso! Muita gente procurando cachorro, gato e cachorro andando no meio dessa gente toda. "Dá a mão pro pai!”, falo aos meus que, com os olhos vibrantes, sorriem. Cores, muitas cores! "Tem uma moedinha pra me ajudar?”

O ponto máximo é o bar da esquina que já às dez da manhã traz religiosamente sua cantora, atração especial, para embalar os frequentadores da feira e clientes do local. Notívagos alguns, ébrios outros. Muitos que encontraram ali o espaço para continuar a noite anterior ou que vão começar ali a comemoração do domingo. A cantora não tem banda, usa playback. Não tem palco, canta no chão e atende pedidos de seu público que, como ela, toma cervejas glaciais e se espalha na calçada, nas mesas coloridas ou no outro brechó que fica na esquina, do outro lado, e sempre tem fila pra entrar. Canta Roberta Miranda, Menina veneno, Moacir Franco e todo o cancioneiro popular que entra nos ouvidos e vai direto pro estômago como quem diz "agora faz uma macarronada e comemora esse domingo, vai!”. É lindo.

Dois ou três quarteirões à frente a feria acaba, mais casas, mais ruas, mais gente, mais criança, cachorro, gato, gente, gente feliz. Então a gente volta, vê tudo outra vez. Para em todas as barracas de novo, olha a nova panela wok super anti aderente de cerâmica que não gruda e não usa óleo, o coador de café de pano, os cabos de vassoura, mais pastel, a pá de lixo feita de lata de tinta, as caixinhas de  bluetooth, o vendedor de laranjas no caminhão com os  filhos pequenos, a senhorinha dos pares de sapato, as sandálias de couro -  lindas sandálias de couro - as redes do Nordeste, os bolivianos com flautas, o pessoal saindo do culto... a cantora que agora canta  Marília Mendonça...

Frequentar a Feira do Solo é uma experiência que, em vida, ninguém pode deixar de ter. É conhecer e mergulhar a fundo na alma de um povo que muito mesmo antes de qualquer iniciativa empresarial sabia bem o que era empreendedorismo e, a seu modo, o fazem bem.

No último domingo fui até lá, de carro e máscara. Pouca gente, quase ninguém. Aqueles que não tem permissão de estar nos três ou quatro quarteirões oficiais sequer foram e os brechós, a senhora dos sapatos, a vendedora evangélica de produtos de limpeza, a loja de mil e uma utilidades...tudo fechado, vazio. Triste. A cantora também não foi e as mesas antes cheia de vida estavam empilhadas  atrás da grade do bar fechado. Ninguém doando cachorro e gradis, destes que cercam eventos, limitavam a entradas para quem por ali passasse. Guardas e álcool em gel faziam seu papel. A feira funcionava dentro de suas permissões...mas não se permitia, não tinha vida. 

Quando tudo acabar, a primeira coisa que quero ver é a Feira do Solo. Tenho certeza de que quando estiver lá e for a feira que eu conheço vou saber que tudo acabou de verdade e a gente passou por tudo isso. A Feira do Solo é a felicidade em forma de pastel, gente e cachorro que eu quero ter.






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