Allexandre Silva

Jornalista especializado em comunicação empresarial, historiador e professor universitário. Escritor e pai.


Caixas de papelão

Por: Allexandre Silva
09/06/2020 às 17:15
Allexandre Silva

Se algum dia lhe fosse permitido assumir a forma de outra coisa, qualquer coisa, animal ou objeto, ser vivo, pessoa ou algo inanimado, o que você gostaria de ser? 

Penso em quanto seria interessante ser uma caixa de papelão. Dessas que inicialmente embalam produtos novos para depois, prestes ao esquecimento, serem reaproveitadas em outra coisa, retiradas do quase lixo para se tornar algo útil. Mesmo sem aparente importância, caixas de papelão são capazes de contar a história de toda uma vida, do início ao fim, são quase livros sem que ninguém dê importância a isso.

Na infância, as caixas de papelão são alegrias múltiplas. Quando pequenas, geralmente são nelas que ganhamos nossos primeiros animais de estimação. Nada mais divertido do que receber a caixa com pequenos furinhos que, quando abertas, deixam saltar os pequenos bichos que vamos chamar  de Pipoca, Lassie – todo mundo já teve uma Lassie – Mimi, Thor e tantos outros nomes que por tempos são nossos bons amigos. 

As medianas guardam os brinquedos, carrinhos, bonecas, rodas quebradas, pás de areia... Se forem grandes deixam imediatamente de ser caixas para se transformar em castelos, cabanas, fortes imaginários onde podemos ser tudo. Estas, ainda, traziam com elas a certeza de que algo novo e bom fora levado pra casa, uma televisão, geladeira, máquina de lavar. Era lindo chamar os amiguinhos da vizinhança com a desculpa de brincar no novo castelo e com o peito cheio de orgulho dizer  que foi nela que veio para casa a Tv a cores, o fogão ou o "tanquinho  colormaqui” cuja água a mãe utilizava para lavar o quintal... crianças tem dessas coisas.

Mais tarde, adolescentes, as caixas guardam livros, cadernos antigos, revistas que se leu e que sempre achamos que teremos uma utilidade um dia. São infinitas, resilientes e nelas sempre cabe algo a mais. Os CDs que não jogamos fora, as roupas para doação e até mesmo  os  brinquedos do passado que não tivemos coragem de nos desfazer. Começa aí nossa primeira biografia, as caixas guardadas, algumas etiquetadas, com o pouco que fomos desde então.

As caixas de papelão levam alegrias e tristezas. Amontoam sem reclamar os presentes de aniversário ou do chá de cozinha para a casa nova, o primeiro apartamento, o início da vida a dois. Em um quarto de dispensa ou sobre os armários, elas olham com paciência o desenrolar do dia enquanto guardam nossas utilidades, futilidades e lembranças. 

Um dia, nos eventos tristes, elas recolhem tudo novamente. A mudança às pressas, o partir para uma nova cidade, um novo tempo ou o relacionamento que acabou. Nelas, a gente coloca o que tem, fecha, coloca em um caminhão e dentro dele a gente vai embora. Leva o que ficou da partilha, o que sobrou da alegria e um rosto triste. Mais do que os amigos sinceros, são as caixas que estão lá olhando pra você e dizendo segue, continua, eu estou aqui.

As caixas de papelão são clássicas. Não existe filme com mudança de emprego ou demissão onde elas não apareçam cheias de coisas antigas, gavetas e agendas que se levam para o porta malas do carro na hora de falar até breve aos amigos. Cheias de tudo o que se guardou durante anos, elas sempre são menores do que deveriam, a régua que cai no caminho até o carro, a caneta que se perde ou o calendário da mesa. É como se elas dissessem que ainda existia algo a ser feito, concluído e que se levou embora. Em casa, elas ficam fechadas por algum tempo até que um dia a gente toma coragem de abrir e encontrar anotações perdidas, contatos antigos, contas pagas, clipes para papel.

Desfazer uma caixa dessas é um convite para revisitar a mente todinha, o tempo de dedicação e a história feita que então você encaixota e sai de cena. Depois de tudo organizado, elas deixam de ser importantes e também são mandadas embora, vão para o lixo, às vezes vazias, outras amassadas, outras reaproveitadas uma última vez levando com elas os saquinhos de supermercado com as sobras da cozinha, as folhas do quintal, o lixo do banheiro. Bela metáfora da vida, elas nos serviram um dia, tudo nos serve um dia.... em outros não.

Caixas de papelão são bibliotecas, ainda guardo algumas cheias de coisas. Negativos das antigas máquinas de filme de 36 poses, cartas da namorada, peças para consertos domésticos, fitas K7. Sapatos, contas pagas, o mixer para fatiar salame que usei uma vez só. Um dia elas também vão embora contando um pouco da minha história, um dia tudo vai embora, todos vamos, somos caixas de papelão também. A nós nos cabe aprender com elas, tudo é passagem, os conteúdos mudam, as coisas se transformam e, como elas, assumem outras formas, novos pesos, ficam marcadas e deixam marcas também. Cabe a gente saber o que fazer com isso... ou simplesmente, com o que nos encher depois.






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