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Farda da vice de Crivella gera mal-estar na ONU e apuração no Exército

Por: FOLHAPRESS - IGOR GIELOW
29/09/2020 às 11:00
Brasil e Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A candidatura da tenente-coronel Andréa Firmo à vaga de vice na chapa do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) no Rio causou mal-e...


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A candidatura da tenente-coronel Andréa Firmo à vaga de vice na chapa do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) no Rio causou mal-estar na Organização das Nações Unidas e no Comando do Exército, que abriu apuração sobre o uso de símbolos militares na campanha.
O motivo é o primeiro santinho virtual da campanha, que já no domingo (27) circulava entre diplomatas do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e oficiais do Exército.
Nele, Firmo aparece numa montagem entre Crivella e o presidente Jair Bolsonaro, apoiador do prefeito, usando o uniforme com o qual tornou-se a primeira mulher a comandar uma base de missão de paz da ONU.
De abril de 2018 a abril de 2019, Firmo chefiou uma base em Tifariti, no Saara Ocidental. Desde 1991, a ONU mantém uma missão de paz no antigo território espanhol que foi invadido pelo Marrocos em 1975, gerando uma guerra com a população local congelada após 19 mil mortos.
A reportagem ouviu três integrantes do DPO, como é conhecido o departamento da ONU por sua sigla inglesa. Todos foram unânimes em condenar a associação entre o órgão e a política, e pode haver um protesto formal ao Brasil.
Uma dúvida entre eles sobre tal queixa é o fato de que a foto original, veiculada pela agência de notícias da ONU, teve removidos digitalmente o brasão da ONU da boina e a indicação do posto no Exército de Firmo do uniforme.
A imagem foi feita quando ela ocupava a função de comandante da base. Nela, Firmo está com uniforme camuflado e boina e lenços azuis, símbolos universais da ONU. O DPO informou que não iria se pronunciar sobre o caso por ora.
"Eu apenas segui a orientação da própria ONU, que na resolução 1325 incentiva o empoderamento feminino e a presença das mulheres na política. Quisemos veicular uma alusão à minha experiência com ações humanitárias, agora em prol das mulheres sofridas do Rio", disse Firmo, por telefone.
No Comando do Exército, houve desconforto entre generais. Segundo a Força, "de acordo com o Estatuto dos Militares, é proibido ao militar o uso dos uniformes em manifestação de caráter político-partidária".
"O caso em tela está sendo tratado, inicialmente, na esfera administrativa", disse o Centro de Comunicação Social do Exército, em nota. Pelo estatuto, ela pode sofrer repreensões ou perder benesses salariais.
Firmo foi informada pela reportagem da iniciativa da Força, que disse desconhecer. "Não cabe esse procedimento administrativo. Não é uma farda do Exército Brasileiro, eu estava sob o guarda-chuva da ONU e tivemos o cuidado de apagar quaisquer identificações", afirmou.
A Força já tem de lidar com a óbvia associação que é feita com o governo Bolsonaro, no qual só no Palácio do Planalto há três generais de quatro estrelas da reserva.
Firmo ainda é uma oficial da ativa. Para ser candidata, ela está em licença e agregada ao Departamento-Geral do Pessoal, sem função militar. A lei exige isso para quem tem mais de dez anos na caserna, caso dela, que passou 24 de seus 51 anos na Força. Para quem tem menos, é obrigatório ir à reserva.
Ela não é filiada a partidos políticos, outro veto legal a militares, mas pode concorrer. "Aceitei essa candidatura para ajudar as mulheres. E temos tantas candidaturas militares no Brasil hoje porque não há exemplo maior de dedicação e amor à pátria", afirmou.
A oficial, que no Brasil trabalhou com refugiados venezuelanos na Operação Acolhida em Roraima, afirma que é preciso promover a imagem feminina. "O histórico [das mulheres] não é operacional na Força. Só agora temos mulheres sendo treinadas para tal na Academia Militar das Agulhas Negras."
O fato de que Firmo só aparece com o uniforme camuflado, sem insígnias, torna seu caso mais poroso, de acordo com militares ouvidos.
A associação entre fardados e a política preocupa a cúpula da Defesa brasileira desde a eleição de 2018, embora algo como uma mea culpa pela adesão em massa de altos oficiais ao governo Bolsonaro raramente seja ouvida em conversas.
O temor mais óbvio, expresso pelo então comandante do Exército Eduardo Villas Bôas à Folha de S.Paulo depois da eleição do capitão reformado da Força Bolsonaro, é o de que a politização encontre um caminho inverso e entre nos quartéis, subvertendo a hierarquia.
Isso não impediu um sem-número de candidaturas que explicitam a origem militar, ou policial militar, desde então. Não é diferente agora: Andréa Firmo é, na propaganda de Crivella, a tenente-coronel Andréa Firmo.
Nos últimos meses, desde que Bolsonaro reverteu o curso de radicalização extrema entre Poderes e trouxe o centrão ao governo, os militares têm conseguido deixar um pouco o foco do noticiário.
Concorreu para isso também a pressão da cúpula, em especial o Alto Comando do Exército, para que não houvesse ministros ainda do serviço ativo. Assim, Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) migrou para a reserva.
A regra, contudo, ainda não atingiu Eduardo Pazuello, que é um general de intendência de três estrelas à frente do Ministério da Saúde. Oficiais seguem se queixando do desgaste que isso traz à Força, em especial pelas polêmicas na condução da crise da pandemia.

Publicado em Tue, 29 Sep 2020 10:53:00 -0300







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