Candidata de oposição da Belarus foge para Lituânia após segunda noite de protestos

Por: FOLHAPRESS - ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
11/08/2020 às 09:00
Brasil e Mundo

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A principal candidata da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia, deixou a Belarus na madrugada desta terça (11), durante a...

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A principal candidata da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia, deixou a Belarus na madrugada desta terça (11), durante a segunda noite de repressão violenta da polícia contra manifestantes que protestam contra o resultado das eleições.
Dados oficiais deram ao atual líder autocrata, Alexandr Lukachenko, 82% dos votos, número considerado questionável por governos europeus, pela União Europeia, por analistas políticos e por oposicionistas e manifestantes bielorrussos.
Tikhanovskaia, 37, foi para a Lituânia, depois de ter ficado detida pelo governo bielorrusso por sete horas, segundo o ministro das Relações Exteriores lituano, Linas Linkevicius. Na manhã de segunda, ela afirmou em entrevista coletiva que a eleição havia sido "extensamente fraudada" e registrou uma queixa na Comissão Eleitoral da Belarus, depois do que teria ficado sob o poder do governo.
Em vídeo divulgado na manhã desta terça e reproduzido em canais governistas da Belarus, a candidata, de olhos baixos e voz abatida, leu uma declaração pedindo aos bielorrussos que "não saiam para as ruas e cumpram as leis".
"Esta campanha me atingiu como um tiro. Pensei que poderia sobreviver a tudo, mas provavelmente ainda sou a mesma mulher fraca que era antes de assumi-la", disse em um segundo vídeo, gravado na Lituânia.
Dona de casa e mãe de dois filhos, Tikhanovskaia assumiu a candidatura depois que seu marido, o blogueiro Siarhei Tikhanovski, foi preso pelo regime de Lukachenko. Em entrevista à Folha, ela disse que refletiu muito após enviar seus filhos para fora da Belarus, sob ameaças, mas concluiu que não poderia deixar a campanha e trair a confiança de seus apoiadores.
"Deus livre qualquer um de vocês de ser forçado a fazer a escolha que tive que fazer. Nenhuma vida vale o que está acontecendo agora. As crianças são a coisa mais importante em nossas vidas", afirmou ela no vídeo gravado na Lituânia.
A reação desproporcionalmente violenta do governo bielorrusso, que deixou ao menos um morto na última noite e centenas de feridos, presos e desaparecidos, foi condenada por vários governos europeus.
A Comissão Europeia não respondeu diretamente se reconhece ou não a eleição de Lukachenko ou quem considera o líder da Belarus no momento, mas afirmou que os 27 países-membros estão em discussão no momento sobre que resposta adotar em relação ao país da Europa Oriental.
"Há dúvidas razoáveis sobre a acurácia dos resultados e defendemos que a escolha da população", disse Peter Stano, porta-voz da Comissão. Segundo ele, houve "um nível de violência inacreditável contra os candidatos, os jornalistas e os manifestantes".
Imagens das duas noites de repressão aos protestos mostram o uso de balas de borracha, gás lacrimogêneo, granadas de dissuasão e rajadas de água. Vários vídeos mostram manifestantes isolados sendo espancados por mais de um policial. Um desses seria um jornalista do site russo Meduza, desaparecido desde a madrugada de domingo para segunda.
Na segunda-feira, o governo bloqueou o local do protesto de domingo, e os manifestantes se dividiram em vários protestos em diferentes regiões de Minsk. Os dois principais locais de confronto foram uma estação de metrô e um shopping center.
Nessa noite, manifestantes montaram com grades, móveis e carrinhos de supermercado barricadas em várias avenidas e reagiram disparando fogos de artifício e coquetéis molotov.
A explosão de um desses artefatos teria sido a causa da morte confirmada pelo Ministério do Interior da Belarus, embora jornalistas não tenham encontrado testemunhas do episódio nem parentes da vítima.
Na manhã desta terça, vídeos mostram trabalhadores deixando fábricas e empresas para se manifestar contra os resultados das eleições bielorrussas.
"As eleições deixaram claro que Lukachenko finalmente perdeu o apoio da maioria da população. Estou convencido de que a maioria não o apoia mais e que isso é irreversível, ele não conseguirá recuperar a confiança da maioria dos bielorrussos", afirmou o especialista em questões bielorrussas Kamil Vlysinski, em entrevista à Folha.
O ministro lituano afirmou à imprensa que a chefe de campanha da oposição bielorrussa, Maria Moroz, também está na Lituânia. Ela havia sido detida pelo governo da Belarus no sábado e, segundo fontes ouvidas pelo jornal, a saída de Tikhanovskaia do país foi uma condição para a liberação de Moroz.
Membros da oposição afirmam que outras pessoas da equipe da candidata continuam presas, "mantidas como reféns".
Lukashenko, no poder há 26 anos, havia afirmado na segunda que usaria a força para esmagar protestos e "impedir que despedacem o país". Ele acusou países como a Polônia, a Grã-Bretanha e a República Tcheca de estarem por trás dos manifestantes.

Publicado em Tue, 11 Aug 2020 08:38:00 -0300






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