Novo romance de Edyr Augusto tem cassino, milícia e serial killer

Por: FOLHAPRESS - PAULA SPERB
14/02/2020 às 12:30
Famosos

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Traficantes constroem um submarino para transportar drogas pelos rios da Amazônia. A cena, uma das inúmeras que desafiam os leitore...

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Traficantes constroem um submarino para transportar drogas pelos rios da Amazônia. A cena, uma das inúmeras que desafiam os leitores mais céticos, surge em uma passagem de "Belhell" (Boitempo, 2020), novo livro do escritor paraense Edyr Augusto, de 65 anos.
A obra será publicada também na França pela editora francesa Asphalte Éditions -é o quinto livro de Augusto para o público francês.
"Pode acreditar", diz o autor sobre o submarino. "Existem fotos. Foi descoberto na água, em uma cidade da área do Salgado, região do Pará onde os rios e o oceano Atlântico se encontram. Estavam fabricando, mas a polícia descobriu".
As imagens realmente comprovam o fato que inspirou uma cena da ficção. O submarino do tráfico internacional tinha quase vinte metros de comprimento. "Entendeu por que não quero sair daqui?", explica Augusto, emendando a resposta com uma risada.
Belém é a cidade que dá título ao livro, em um neologismo que mistura seu nome com a palavra "hell" -inferno, em inglês, que serve de cenário mais uma vez para o romance de Augusto.
"Me sinto como o correspondente de guerra que não consegue deixar o front porque fica viciado naquela adrenalina. Belém tem tanta confusão acontecendo todo dia que não consigo deixar isso", diz.
Assim como o livro anterior, o sucesso de crítica "Pssica" (B2015), Belém é violenta, corrompida e permeada pela impunidade em "Belhell". A nova narrativa gira em torno do universo dos jogos de azar, ilegais no país. Parte da ação se desenvolve em um luxuoso cassino montado em um improvável prédio inacabado, uma ruína urbana tão familiar aos centros decadentes das grandes cidades.
A linguagem de Augusto já se tornou sua marca registrada. Mais uma vez é concisa e permeada de oralidade, com uso frequente de expressões locais como "égua" -que deu título ao seu primeiro romance "Os Éguas" (1998)- e "tu" -aplicando a conjugação formal "tu queres, tu fazes"- aproximando paraenses dos gaúchos e desacomodando quem não está habituado ao seu uso.
"Esse tipo de escrita é uma maneira de fazer uma provocação para o leitor, para que ele pense: Deixa-me ver se gosto disso", explica Augusto. A experiência com jornalismo e publicidade, "áreas em que se é levado a reduzir ao máximo o número de palavras", colaboraram com o texto de frases curtas de Augusto.
A estética da violência também ressurge, agora talvez mais exacerbada do que nas obras anteriores. O leitor se depara com moradores de rua, vítimas de um assassino em série, que defecam ao serem estrangulados.
"Passou o fio cirúrgico no pescoço. Seu João era mais baixo e fraco. Nem lutou tanto. Cagou, mas foi só água, pouco. Ele que se esporrou todo ao sentir aquele corpo amolecer, a alma fugir. Cheiro de sangue, esperma, merda", conta o narrador.
Tema frequente no noticiário, as milícias também fazem parte da trama. Depois de uma conduta duvidosa, o rapaz que estudou Direito porque sonhava em ser delegado acaba cooptado para o crime, se transformando em um assassino por encomenda.
"Me interessa o momento em que as pessoas, com seus defeitos e qualidades, são atingidas por um faro tão forte que precisam deixar suas crenças de lado", explica.
Os capítulos contam histórias de diferentes personagens: a anã dona de um bordel, a garota pobre que enriquece jogando pôquer profissional, a copeira que se descobre lésbica, o miliciano, o órfão que administra o cassino e os médicos, um corrupto e outro serial killer, que escapam da imagem idealizada dos profissionais da medicina.
"O Pará é um dos estados mais ricos, potencialmente, mas é um dos mais pobres, onde nada é feito para a maioria. Tem uma elite egoísta, com apartamentos em Miami, mas quando põe o pé na rua pisa na lama porque não vai nada para o coletivo não vai nada par ao coletivo", diz Augusto.
O romance tem uma alternância de narradores. O leitor é conduzido ora por um narrador onisciente ora por uma voz em primeira pessoa, "o escritor".
É o escritor, o narrador-personagem, que tem os olhos vendados para encontros com o criminoso que revela toda a história de caminhos cruzados no cassino Royal.
"Pedro, o personagem que vai me apanhar na escada quando acordo, ele existe", conta Augusto, mesclando sua identidade com a do narrador. Não foi a primeira vez que o escritor deixou seus leitores na dúvida sobre se realmente viveu aquilo que estava escrevendo.
"Enquanto escrevia o livro, mantinha minha coluna de crônicas no jornal. Fiz esse exercício e as pessoas se sentiram muito provocadas. O que houve? Foste tu? Me perguntavam. Quero que as pessoas se sintam dentro deste ambiente", revela.
O escritor prefere que o livro não seja lido pausadamente, "um capítulo por dia antes de dormir". "Não quero deixar isso acontecer. Quero deixar a pessoa ligada naquilo, talvez até ofegante, não deixá-la sair. Não quero deixar o leitor parar", diz.
  

Publicado em Fri, 14 Feb 2020 12:29:00 -0300






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