O atendimento será conduzido por residentes, alunos da Famerp e integrantes da Liga de Dermatologia, com supervisão de médicos especialistas. O objetivo é ampliar o acesso da população à informação e facilitar a identificação precoce da doença.
"O objetivo é facilitar para a população o acesso a informações e orientações sobre a hanseníase, sobretudo sobre seus sinais, que muitas vezes passam despercebidos”, explica o professor emérito da Famerp e dermatologista João Roberto Antonio. "A hanseníase é uma doença antiga, mas ainda atual. Tem tratamento, tem cura, e o diagnóstico precoce evita sequelas e interrompe a transmissão.”
Brasil ainda enfrenta cenário preocupante
Apesar dos avanços da medicina, o Brasil segue em posição de alerta no cenário mundial. O país ocupa o segundo lugar em número absoluto de casos de hanseníase no mundo, atrás apenas da Índia, e concentra 92% das notificações registradas nas Américas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2024, foram registrados 172.717 novos casos da doença em todo o planeta.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), o Brasil também lidera o ranking mundial da taxa de detecção, indicador que mede o número de novos diagnósticos a cada 100 mil habitantes. Para a entidade, esse índice é essencial para identificar precocemente a doença, tratar os pacientes e interromper o ciclo de transmissão, condição fundamental para que a hanseníase deixe de ser um problema de saúde pública.
Sintomas muitas vezes ignorados
A hanseníase é causada pelo bacilo Mycobacterium leprae e afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. Os primeiros sinais incluem manchas claras ou avermelhadas, geralmente acompanhadas de diminuição ou perda da sensibilidade ao calor, à dor e ao tato. Por não provocarem coceira ou dor, essas lesões costumam ser ignoradas, o que contribui para o diagnóstico tardio.
A aposentada Conceição Aparecida Garcia de Souza, de 82 anos, moradora de Palestina, é um exemplo de como o diagnóstico pode ser difícil. Ela descobriu a doença em setembro do ano passado, após acordar com o rosto inchado e arroxeado, sem dor, mas com febre alta, que chegou a 39 °C.
"Fui à UBS e tomei remédio para infecção, mas não melhorou. Minha filha me levou novamente e, de lá, fui encaminhada para a emergência do Hospital de Base”, relata. Conceição ficou internada por seis dias até que uma biópsia confirmasse o diagnóstico, após um exame inicial negativo.
Tratamento gratuito e vida normal
Além do impacto físico, o diagnóstico trouxe medo e receio do preconceito. "Eu nunca conheci ninguém com essa doença, mas lembrava do que meus avós falavam, que antigamente as pessoas eram isoladas, não podiam nem compartilhar talheres”, conta.
Após iniciar o tratamento, as lesões e os nódulos desapareceram. Atualmente, Conceição leva uma vida normal e recebe a medicação mensalmente no posto de saúde, fornecida gratuitamente pelo Estado. "Tomo os comprimidos no posto e levo a cartela para usar durante o mês. Hoje estou tranquila”, afirma.
"A maior parte dos casos que atendemos chega encaminhada das unidades básicas de saúde, quando o diagnóstico ainda gera dúvida ou exige investigação mais aprofundada”, explica a dermatologista Fernanda Mattar, responsável pelo ambulatório de hanseníase da Funfarme/Hospital de Base. Segundo ela, o serviço oferece acompanhamento contínuo e exames de média e alta complexidade.
O ambulatório é referência para 102 municípios da DRS-15 e, apenas em 2023, atendeu 237 pacientes.
Para a especialista, iniciativas como o mutirão ajudam a reduzir o estigma associado à doença. "Quando a população entende que a hanseníase é tratável e curável, o medo diminui e as pessoas procuram atendimento mais cedo. Isso muda completamente o desfecho da doença”, afirma.
O tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, poucos dias após o início da medicação, pacientes em sua forma contagiante deixam de transmitir a doença. "Informação e acesso continuam sendo nossas principais ferramentas”, reforça a médica.
Sinais e sintomas da hanseníase
• Manchas na pele (brancas, avermelhadas, acastanhadas ou amarronzadas) com alteração da sensibilidade térmica, dolorosa ou tátil;
• Espessamento dos nervos periféricos, com alterações sensitivas, motoras ou autonômicas;
• Redução dos pelos e do suor em áreas afetadas;
• Formigamento ou fisgadas, principalmente em mãos e pés;
• Diminuição ou perda da força muscular na face, mãos ou pés;
• Presença de caroços (nódulos), que podem ser avermelhados e dolorosos.