Plataformas de apostas online, muitas vezes divulgadas como jogos simples e promessas de ganhos rápidos, tornaram-se presença constante no dia a dia dos brasileiros. Seja trabalhando ou se divertindo no celular, é comum que usuários se deparem com anúncios de jogos populares, como o conhecido "tigrinho”, que prometem altos retornos financeiros com depósitos iniciais de valores baixos, em alguns casos a partir de R$ 5.
O que muitos jogadores não percebem, no entanto, é que as taxas de perdas costumam ser significativamente maiores do que os ganhos. A facilidade de acesso, aliada à promessa de lucro rápido, tem transformado o entretenimento em um problema crescente de saúde pública e endividamento.
Diante desse cenário, o Senado Federal instaurou, em 12 de novembro de 2024, a CPI das Bets, Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar o crescimento das apostas online no Brasil, seus impactos sociais e econômicos, além de possíveis irregularidades no setor. Entre os pontos apurados estavam o uso de influenciadores digitais para promover casas de apostas, suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, manipulação de algoritmos e prejuízos ao orçamento das famílias brasileiras.
A comissão ouviu depoimentos de influenciadores digitais, como Virginia Fonseca, convocada para esclarecer contratos firmados com plataformas de apostas e negar a existência da chamada "cláusula da desgraça”, que previa o recebimento de percentuais sobre as perdas de seguidores que apostavam por meio de links patrocinados.
Durante os trabalhos, a CPI também aprovou medidas como a condução coercitiva de representantes do setor que não compareceram às convocações, incluindo o influenciador Jon Vlogs e empresários ligados a plataformas de apostas online.
O relatório final, apresentado pela relatora, senadora Soraya Thronicke, apontou possíveis crimes como lavagem de dinheiro, evasão fiscal e organização criminosa, além de sugerir indiciamentos de pessoas ligadas às casas de apostas. No entanto, em 12 de junho de 2025, o Senado rejeitou o relatório por quatro votos a três, encerrando a CPI sem que as recomendações fossem adotadas. Foi a primeira CPI do Senado, em uma década, a ter o relatório final rejeitado.
Apesar do encerramento sem medidas legais imediatas, o tema gerou debates no Congresso Nacional e propostas legislativas relacionadas à tributação do setor, à saúde pública e à proteção dos consumidores.
Para entender como o vício nas apostas começa, a reportagem conversou com Diego, nome fictício para preservar sua identidade. Aos 23 anos, ele relatou que iniciou nas apostas durante a pandemia, em um momento de fragilidade emocional.
"Comecei na pandemia, num momento de tristeza. Busquei refúgio nas apostas, primeiro esportivas, com bancas baixas de R$ 10 ou R$ 20. Aí você ganha R$ 100, R$ 150, começa a subir as apostas e entra em um ciclo vicioso”, relatou.
Segundo Diego, as plataformas utilizam mecanismos para manter o jogador ativo. "Já tive ganhos altos, porque é uma forma de te prender. Algumas têm até barra de saque, você só consegue retirar o dinheiro quando completa a barra. Teve épocas em que cheguei a movimentar quase R$ 12 mil”, contou.
O problema, segundo ele, foi a escalada das apostas motivada pela ganância. "Você pensa: já fiz tudo isso, será que consigo dobrar? Quando coloquei na ponta do lápis, as perdas passaram de R$ 50 mil, principalmente quando fui para os slots, como o famoso tigrinho, com rodadas a partir de 50 centavos, que prometem grandes ganhos, mas induzem a perdas enormes”, afirmou.
Hoje, Diego diz estar longe das apostas e faz um alerta. "Parece um simples jogo, mas pode destruir sua vida amorosa, familiar e financeira. Acho que as pessoas não devem se aprofundar nem se iludir com esse mundo”, concluiu.