Violência policial contra negros nos EUA pode reduzir peso de bebês e encurtar gestações

Por: FOLHAPRESS - REINALDO JOSÉ LOPES
04/12/2019 às 18:30
Brasil e Mundo

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Casos de violência policial contra negros nos EUA parecem ser capazes de influenciar negativamente a saúde de bebês desse grupo rac...

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Casos de violência policial contra negros nos EUA parecem ser capazes de influenciar negativamente a saúde de bebês desse grupo racial ainda na barriga da mãe, diz um estudo epidemiológico que acaba de ser publicado na revista especializada Science Advances.
A pesquisa do sociólogo alemão Joscha Legewie, da Universidade Harvard (EUA), revelou que há uma associação significativa entre situações nas quais a polícia matou negros desarmados, de um lado, e diminuições no peso ao nascer e no tempo total de gestação de bebês negros no estado americano da Califórnia. Ambas as situações estão ligadas a piores condições de saúde ao longo da vida e a um maior risco de problemas de desenvolvimento para essas crianças.
O efeito é considerável, segundo o levantamento de Legewie, quando as mortes acontecem durante o primeiro e o segundo trimestres de gestação e se dão perto dos locais onde os bebês e suas famílias vivem (a até 2 km de distância).
Em média, quanto mais cedo na gestação e mais perto da gestante o incidente ocorre, mais elevada é a associação negativa. Os bebês cuja família morava a 1 km do local das mortes, por exemplo, nasceram com até 80 g de peso a menos e "perderam", em média, meia semana de gestação em relação aos demais.
Os dados da análise vão de 2007 a 2016, correspondendo a cerca de 200 mil nascimentos de bebês negros e 164 casos de mortes de negros desarmados, num conjunto total de quase 4 milhões de nascimentos na Califórnia nesse período.
Para analisar esses casos, Legewie tomou como ponto de partida uma área de estudos cada vez mais consolidada, que tem mostrado a importância de fatores de estresse para a saúde e o desenvolvimento desde a gestação.
Sabe-se que os hormônios do estresse afetam negativamente, por exemplo, o sistema imune, que defende o organismo de infecções --basicamente porque não faz tanto sentido que o organismo gaste energia se preparando para enfrentar uma doença quando precisa lidar com ameaças muito mais imediatas, como predadores e adversários (as fontes do estresse). No longo prazo, isso deixa o indivíduo afetado mais vulnerável a diversos problemas de saúde.
O aumento dos hormônios do estresse nas gestantes também tende a encurtar a gestação, levando ao nascimento de bebês com peso menor. Tais efeitos costumam ser maiores em populações de baixa renda, que sofrem discriminação e que são alvos preferenciais da repressão policial.
É exatamente esse o caso dos negros nos EUA. Membros dessa população correm quase o triplo do risco de serem mortos por policiais quando comparados aos brancos (no Brasil, cerca de três quartos das mortes causadas pela polícia são de negros). A probabilidade de baixo peso ao nascer (ou seja, peso inferior a 2,5 kg) entre negros americanos é o dobro da dos brancos, e o mesmo vale para a taxa de mortalidade até um ano de idade.
A hipótese do pesquisador de Harvard é que fatores como esses sejam especialmente agudos quando há proximidade entre gestantes negras e casos em que negros desarmados --os quais, portanto, não representavam grande ameaça aos policiais-- são mortos.
Essas situações reforçariam a percepção de tratamento injusto e de discriminação nessas comunidades, atuando como um fator social de estresse e afetando o desenvolvimento dos bebês durante a gestação. É possível que mesmo efeitos relativamente sutis como os detectados pelo estudo acabem tendo impacto na saúde e no desenvolvimento escolar das crianças negras, reforçando a desigualdade que já está presente na sociedade americana.

Publicado em Wed, 04 Dec 2019 18:07:00 -0300






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