José Vitor Rack

Escritor e roteirista


Crônica da saudade acumulada

Por: José Vitor Rack
15/09/2019 às 10:52
José Vitor Rack

Durante a vida a gente vai se encontrando, se desencontrando, se alegrando com as chegadas e ficando miserável de raiva com as despedidas. Gente que vai, gente que vem, você já sabe bem como funciona.

 

A saudade é um sentimento muito filho da puta que nasce no coração da gente exatamente nesse vai e vem de amores e desamores em que todos nós estamos metidos.

A saudade não é boa conselheira. Costuma forçar a gente a fazer coisas que em uma situação normal, com o cérebro bem oxigenado, não faríamos nunca. Por saudade acumulada a gente se enfia em aviões e ônibus e trens e metrôs e vans e viaja até a Cock’s House (Casa do Caralho em inglês, estou internacional hoje!) só pra rever um sorriso, pra afagar aqueles cabelos.

Saudades Acummulatis é um vírus que entra na corrente sanguínea e tem efeitos estranhos, como deixar você e sua cara de abobado em exposição aberta ao público no escritório. A menina do Departamento Pessoal começa a considerar colocar uso de drogas na sua ficha, de tão ridícula e suspirativa que é a sua figura depois do almoço, com olhos avermelhados.

Por saudade acumulada a gente fica doente. Gripa à toa. As coisas perdem um pouco da cor.

O saudoso fica nostálgico de uma maneira insuportável. Não sabe o nome da Presidente da República nem tem ideia dos resultados da rodada de domingo. Mas recita com exatidão palavra por palavra que foi dita na última conversa telefônica que teve com a amada que foi embora em 1992, num dia de chuva, enquanto o rádio tocava Tears For Fears.

A saudade nem sempre é de quem foi embora. Temos saudades de como as pessoas eram. Do pai, que antigamente ganhava menos, mas tinha muito mais tempo para conversas na varanda. Do amigo que subiu de vida e te jogou pra escanteio, levando com ele as duas abençoadas orelhas que você tanto alugou e os dois macios ombros onde você chorou enquanto ouvia-o dizer que você tava parecendo uma menininha. Da mulher que numa crise no casamento arrumou um amante: você. E quando ela voltou às boas com o marido deixou você na lama, pior que ex-BBB mendigando convite VIP pra camarote de cervejaria em micareta.

A saudade nem sempre é de pessoas. Saudades daquele carro que você pagou em 96 parcelas e que a enchente transformou em uma lamacenta piscininha. Dos anos 80. Da comida da sua avó. Do apartamento em que você nasceu. Do Dr. House, personagem tão viciante que fugiu de si mesmo com o Dr. Wilson numa moto envenenada. De viajar de trem e jantar no vagão-restaurante. De tragar um bom cigarro depois do almoço. De um abacateiro que havia no quintal e que foi cortado para não destruir a casa. Da TV Manchete. Das férias em Ubatuba. Da Seven Up e da Cherry Coke. De como eram seus seios antes de amamentar três filhos por dois anos cada um.

A saudade de quem já foi pro outro plano da vida. A saudade da sua juventude. A saudade das suas calças boca-de-sino.

As saudades são muitas, são múltiplas, são todas filhas da nossa própria incapacidade de olhar a vida de frente e encarar as mudanças de maneira muito natural. Mudanças são naturais, desejáveis. Tudo é temporário. Nada é eterno a não ser a própria vida.






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