Alaor Ignácio

Jornalista, publicitário e escritor.


Poste o protesto, que eu curto

Por: Alaor Ignácio
04/02/2020 às 08:38
Alaor Ignácio

Esse excesso de informações paradoxais, apropriadas e irrelevantes, informativas e fakes, parece nos causar certa redução da sensibilidade. Rimos de tragédias com a desfaçatez dos feiticeiros do mal das histórias em quadrinhos. Ignoramos dores alheias, tal torturadores que, de repente, voltam à baila por invocação de estúpidos governantes. E toda essa conversa, o que é ainda pior, parece-nos óbvia demais!

O porre é que o protesto sem foco sequer chega a um possível efeito placebo: nem de mentirinha resolve. Mil porradas em redes sociais nesse governo composto por ignorantes, larápios e fantoches não funcionam sequer como as facas do atirador do circo, que invariavelmente erram pela sobrevivência do alvo. Protestos na rua, nem pensar.

Confesso que ando com o "enfado cheio” desses posts de contestação. Concordo com todos, mas e daí? Até certo ponto, as redes sociais se apresentam como espaços de autonomia, que estão muito além do controle de governos e empresas. Juntas, as pessoas que pensam parecido sobre alguma causa, superam seus medos ou covardias off-lines, graças à difusão rápida de uma denúncia, uma gague estúpida, de mais ação de desgoverno ou mesmo de uma fake news. Ocorre que, ao contrário de 2013 ou anos vizinhos, quando revoltas e protestos eclodiram no Egito, na Tunísia, na Primavera Árabe, na Espanha, no Brasil e até mesmo nos EUA, com o movimento Occupy Wall Street, essa tal "indignação e esperança” (como bem apontou à época o sociólogo espanhol Manuel Castells) não está se materializando, por exemplo, para dar um fim nesses desmandos entreguistas e por vezes neonazistas de governos como o de Jair Bolsonaro e seus asseclas.

Toda essa conectividade promotora de uma nova forma de participação tem se esvaído, líquida ou vaporosa, sei lá, para retroalimentar uma oposição que parece estar conformada com essa luta: protestando, falando o que quiser, descendo a ripa, dando porrada... desde que virtualmente. Se em 2013 a mobilização virtual levou à queda de governos autoritários (embora a recíproca também esteve e está se verificando no Brasil e no mundo), agora esse net-ativismo demonstra estar satisfeito exclusivamente com o gesto de "postar”. Viu? Acabei com eles no post!

"Eu tenho medo”, e nem me chamo Regina.






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