Denise Tremura

Escritora e influencer digital


O destino dos carroceiros

Por: Denise Tremura
23/12/2019 às 11:22
Denise Tremura

Recentemente o prefeito de São José do Rio Preto, Edinho Araújo, sancionou uma lei que proíbe veículos movidos a tração animal na cidade. Não será mais permitido trafegar com carroças puxadas por cavalos no perímetro urbano. 

A lei, proposta pela vereadora Claudia de Giuli, teve aprovação por unanimidade dos vereadores da Casa. Com amplo apoio dos protetores dos animais, que lotaram a Câmara Municipal com faixas e cartazes, a nova lei foi muito festejada, mas levantou uma polêmica: o que será dos carroceiros que trabalham com os cavalos? Do que vão viver? Com o que podem trabalhar?

A humanidade está em processo de constante evolução. A tração animal é uma tecnologia muito antiga e ultrapassada. Desde a Revolução Agrícola, datada de aproximadamente 12 mil anos A.C. o ser humano domesticou e escravizou os animais, principalmente para alimentação e força de trabalho. 

Desde que foi desenvolvida, a força dos cavalos e bois já foi superada e muito por diversos outros tipos de motores: a óleo, carvão, gasolina, álcool, vento, eletricidade e diversas outras formas melhores e menos desumanas de produzir movimento e carregar peso. Quem não se incomoda em ver um animal apanhando debaixo do sol, no asfalto quente, carregando muito mais peso do que o do seu próprio corpo, tem algum problema sério de humanidade. 

Quem deu o direito ao ser humano de escravizar dessa forma os animais? Se existe um Deus, certamente Ele não foi. Falta de amor e empatia utilizar o sofrimento animal em benefício próprio, mas o egoísmo é uma premissa do ser humano. Esse tipo de escravidão já deveria ter sido abolido há tempos, mas parece que finalmente estamos em um caminho. Rio Preto é uma cidade de grande porte, com quase meio milhão de habitantes. 

Os veículos puxados por animais são vagarosos (por mais que eles apanhem não conseguem correr muito) e acabam por atrapalhar o trânsito de forma geral. Essa lei foi muito bem-vinda e contou com o apoio de grande parte dos cidadãos, pois a consciência do sofrimento dos animais e a luta contra os maus tratos vem atingindo uma parte cada vez maior da população. 

O meu pai, Dorival Tremura, era telegrafista. O telégrafo é uma tecnologia de transmissão de dados por sinais, o bisavô da fibra ótica. Com ele, era possível enviar mensagens escritas em tempo real para qualquer lugar do mundo conectado a uma linha telegrafista, através de sinais. Quando tecnologias melhores surgiram (o fax foi uma delas e já está praticamente aposentado pelo e-mail e afins), o telégrafo foi aos poucos sendo substituído, e seus operadores, técnicos que precisavam conhecer o código Morse, ficaram sem função. O meu pai procurou outro emprego e foi trabalhar em outras áreas. Foi diretor de hospital, de curso supletivo e representante comercial. 

Assim como os telegrafistas, os reveladores de filme de máquina fotográfica também perderam ofício na sociedade atual e não há como frear isso. Atendentes de vídeo-locadoras, que precisavam conhecer sobre cinema, também tiveram que procurar outro tipo de trabalho. Por certo, os carroceiros também têm sua hora de parar, de entender que a ferramenta de trabalho deles é algo que já foi ultrapassado. 

Claro que existe, e deve existir sempre, a preocupação com a pessoa humana que trabalha com a tração animal. Os carroceiros são parte da sociedade e devem ser preservados por ela. A lei aprovada em São José do Rio Preto prevê um suporte aos carroceiros, como cursos para qualificação em outras áreas e ajuda para recolocação no mercado. Isso mostra que é possível evoluir sem causar sofrimento aos seres vivos sob nossa guarda. A preocupação com o bem-estar animal e meio-ambiente é uma tendência mundial contemporânea. Isso mostra que estamos evoluindo enquanto sociedade, nos tornando pessoas melhores, mais humanas e amorosas. 

Foi o Homem que tirou os animais do seu habitat, lhes causando todo tipo de sofrimentos, onde a morte para alimentação é o menor deles. Agora cada vez mais cresce a consciência de que devemos zelar pelos bichos e não lhes fazer mal. Na Índia, em algumas províncias, já é proibido criar pássaros em gaiolas, quem sabe um dia a gente alcance esse grau de bondade também? O fim da tração animal em São José do Rio Preto mostra que a cidade saiu na frente no imenso caminho que ainda temos na luta pela causa animal. É um pequeno grande passo na nossa evolução enquanto humanidade. E Deus, caso exista, está um pouco mais feliz com a gente. 






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