Eder Galavoti

Delegado de polícia e professor da academia de Polícia Civil de São Paulo, lateral direito e corintiano


Sorria! Você está sendo observado...

Por: Eder Galavoti
08/10/2019 às 14:03
Eder Galavoti

A melhor forma de dar destaque pra algo é criar uma polêmica.

Estrategicamente foi uma grande sacada dos produtores do filme O Coringa espalharem a ideia de que a película poderia incentivar matanças coletivas. Que o diga o senhor ex-procurador Rodrigo Janot que, para vender um livro, espalhou a notícia de que iria matar o ministro Gilmar Mendes e, então, fez o STF criar o novo tipo penal: "pensar em matar”. 

O problema é que o procurador esqueceu que estava em Belo Horizonte e, para sua missão, teria que utilizar um míssil teleguiado, ou um drone equipado com um rifle Remington .308. Resumindo, em ambos os casos temos a mentira como combustível. 

Dia desses li um post de uma colega jornalista que estava inconformada com a plateia e seus risos diante de maldades praticadas pelo Joker. Não assisti ainda o filme O Coringa, mas imaginei as pessoas sorrindo em suas poltronas diante de atrocidades praticadas pelo protagonista. Sangue, maldades, risadas e pipoca. 

Num primeiro momento, a conduta observada pela colega junto ao público  é absurda  e repugnante, mas ela se explica  num mundo que ainda tem jeito. Divido aqui, para explicar esse comportamento estranho, um pitaco do tema que adoro e que vou defender tese em breve. Cada um tem seu sistema representativo dominante de percepções sensoriais (olfativos, auditivos, visuais, táteis e palatares). 

Ter conhecimento dessa qualidade individual traz grandes vantagens. Eu, por exemplo, desde criança gostava de ver quadros e ver os detalhes. Olhava o mapa mundial e tinha certeza de que o Brasil fora grudado com a África, portanto meu sistema sempre foi o visual.  

Encontrei-me nas investigações criminais porque parte dessa complexa função está na observação e análise de imagens e de pessoas.  Dentro do trabalho investigativo policial, rotineiramente entrevistamos todo tipo de pessoas a fim de que estas relatem o que viram e o que fizeram. 

A entrevista policial é a arte de fazer uma pessoa reproduzir uma situação vivida ou sabida. Tudo que é contado tem a perspectiva pessoal do relatante. Portanto, nunca teremos narração de uma verdade total. A memória não é um aparelho de rodar vídeo e mesmo se fosse não funcionaria. Anotem como exemplo a celeuma do VAR no futebol. 

Os envolvidos observam a imagem várias vezes e ainda assim concluem de formas diferentes.   Somando a essa verdade contada que não existe temos ainda o fato narrado no início dessa conversa, ou seja, as pessoas mentem. Mentimos por diferentes motivos e por motivo nenhum. Até os animais mentem para sobreviver. Mentimos desde bem cedo. 

Um bebê chora porque está com fome e então  a mãe aparece para amamenta-lo. Com o tempo, ele chora sem fome para ter a mãe por perto. Fazer manha também é mentir. Imaginem então aqueles que cometeram crimes e estão sendo indagados a respeito. Pra quem não sabe, o Brasil é signatário do Pacto de San José da Costa Rica e então aderimos ao princípio "nemo tenetur se detegere”  ou seja, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. 

Adequando esse princípio às entrevistas com os autores de crimes, temos que o investigado tem o direito de mentir.  A função do policial investigativo então é identificar os pontos em que esse criminoso está faltando com a verdade e desconstruir a versão apresentada. Para tanto, foram desenvolvidos os mais diversos tipos de Detectores de Mentiras. 

Os mais comuns medem pressão sanguínea, respiração, pulsação e temperatura corporal, anotando variações quando se opera a mentira. Outros escaneiam as atividades cerebrais.  Os mais modernos analisam a voz em multicamadas, todavia, nosso sistema processual não aceita essa ferramenta e suas conclusões como prova, pois diversos fatores podem influenciar os resultados. Diante disso, tem-se que a melhor maneira de identificar uma inverdade ainda é a velha observação.  

Qualquer pessoa possui capacidade de identificar uma mentira em metade dos casos, mas esse dado nem deve ser levado em conta, pois um macaco chipanzé tem a mesma porcentagem de percepção. Todavia, observando com atenção, essa possibilidade de acerto aumenta, ficando entre 60 e 70 por cento. 

Devidamente treinada, uma pessoa comum consegue detectar uma mentira  em  até 95 por cento. O caminho desse treinamento começa na identificação das emoções experimentadas pelo entrevistado e suas respectivas expressões e gestos. Curiosamente a expressão que mais utilizamos para disfarçar um sentimento real é o sorriso. Identificar um sorriso falso é identificar uma mentira. 

O mesmo bebê que citei antes, quando não está com fome ou alguma dor, aprende a segunda lição da mentira que é muito mais eficaz. Se ele sorrir em vez de chorar terá companhia dos pais e de qualquer adulto  por mais tempo. Quem não gosta de um bebe sorrindo? Na vida adulta maridos com chinelo na mão dão risadas para disfarçar de suas esposas o medo de uma barata voadora. 

Construímos um sorriso amarelo para um cliente mal educado para não manda-lo a m.. Quer ficar craque na observação? Passe a observar a enxurrada de selfs. O que mais temos é o "sorriso social”. Aquele apenas para a foto, mas que não deixa de ser falso. Poucas tem um sorriso verdadeiro. Voltemos então à conduta aparentemente idiota do público no cinema. Trata-se na verdade de uma mentira coletiva.  

Temos gargalhadas e sorrisos falsos para suprimir os sentimentos de repulsa e medo, daí o porquê da crença de que o mundo ainda tem jeito. Agora se alguém sorriu verdadeiramente com as ações do Coringa ele certamente é um psicopata e isto é assunto para outro artigo pois eles estão por toda parte.  









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