Angélica Zignani

Diretora artística e de elenco da Cia dos Pés e ativista cultural


Exercícios para mudar o sofrimento humano

Por: Angélica Zignani
03/10/2019 às 14:44
Angélica Zignani

Quando nasce uma criança, ainda vive a criança no adulto que a ampara.

O cordão físico que se rompe na hora do parto não instrumentaliza o adulto. O sofrimento se descobre quando deixamos de lado a natureza e preparamos a existência para o futuro.

Quando é o futuro?

O mundo e as estruturas sociais ainda não sabem como receber uma criança. Não existe acesso nos lugares públicos, os bancos nos teatros e cinemas são tronos homéricos para o corpo pequeno, que faz um esforço gigantesco para estar presente, ficando os exemplos apenas na superfície do lago abismal do problema.

O que dizer sobre a maneira como conversamos com a criança? Seria interessante observar que um diálogo é feito especialmente no olhar.

No entanto, faça uma pequena pausa e imagine uma conversa adulto-criança padrão, você consegue ver a tensão no pescoço pequeno fazendo ginastica para acessar a voz que vem do alto. Conseguiu?

Nós adultos estamos em pleno exercício de dominação. Dos adultos com as crianças, dos homens com as mulheres, dos mais favorecidos com os menos favorecidos. Uma guerra ininterrupta, em todas as esferas de nosso cotidiano.

É obvio que quando nasce uma criança, nasce também, e finalmente, a possibilidade de exercermos o poder sobre um mais fraco.

Quando pudermos abandonar essa grande obsessão por superioridade, poderemos enfim construir uma maneira de entender que as punições são ferramentas fáceis de alívio pessoal. Ainda sendo a criança que fomos, sentimos as cicatrizes que criamos durante nosso desenvolvimento.

No entanto, até mesmo as mais profundas cicatrizes podem ser aliviadas, e é possível observar fisicamente, quando fazemos o exercício de nos enxergar na criança que nasceu.

Entendemos nossas dores acolhendo e respeitando as dores nos nossos filhos* ou no singular, filha, filho, criança. 

Uma ferramenta prática que pode nos guiar em todos os momentos é essa pergunta: E se fosse comigo?

Uma pergunta que oferece muitas respostas, mas não todas, no entanto nos aproxima do sentimento de empatia, de talvez se perceber aos berros para ser ouvido.

Que razão tem um adulto que se descabela para ter atenção? Será a mesma da birra que tanto condenamos?

Na luta pela posição de poder, nas pequenas tarefas do cotidiano, nos esforços de existência mínimos, colocamos tanta pressão nos símbolos que acreditamos serem de poder que nos distanciamos do relacionamento.

Os compromissos com o futuro matam a existência agora, engessam os comportamentos ao padrão imperante e dessensibiliza a humanidade do contato.

Quantos comportamentos estão condenados à repetição de uma ordem abstrata?

O que é vida em um reino de índices numéricos? A quem dedicamos tantos resultados? Que compromisso lançamos todos os dias rumo ao sofrimento, buscando somente resultados padronizados e fortemente estabelecidos?

Ainda sinto que nosso sentido maior não está nos números, não se contabiliza o amor, o respeito. Do que realmente somos feitos palavra e número nenhum alcança.

Não percamos a oportunidade de perceber que só existimos por que existe o outro.

 






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